A verdade é nua e crua: eu nunca aprendi a sorrir. Não, não é um texto metafórico. Falo do fenômeno físico, de mover os músculos no rosto até colocá-los na sintonia perfeita do tal do sorriso, para que eu possa ser fotografado. Não é uma frustração atual. Mas, após vinte anos com isso, acho que seria bom contar para vocês.
Começou quando eu era pequeno. Lembro que meus pais me posicionavam para tirar foto com algum parente ou amigo da família. Momentos de tensão. Aqueles segundos cruciais antes do flash, que imortalizará sua face perante o álbum da família. Espontaneidade era bem quista, embora as pessoas pedissem para que eu sorrisse. Era compreensível. Eu estava brincando, e tinha que parar para abraçar alguém. Então, eu deixava que meus lábios deslizassem, e ali estava: meu sorriso. Então, pediam para eu "parar de fazer careta", enquanto eu apenas estava tentando sorrir. Cresci com isso.
Os anos passaram. Eventos pseudo-sociais. Casamentos, primeira comunhão, bailes, formaturas. Eu estragava as fotos com meu sorriso imperfeito. Até que decidi que eu era um fator fotográfico de risco. Após esse insight, resolvi que iria abraçar uma faceta mais rígida. Lábios repousados, secos, sem expressão. A falta de interesse era presente em todos os pontos do meu rosto. Eu era blasé, com doze anos de idade.
Logo, as pessoas começaram a reclamar que eu era muito sério. Sisudo. Isso, até minha adolescência. Afinal, seriedade e rigidez, após um tempo, tornam-se sinônimos de arrogância e prepotência. Tudo bem, eu não estragava mais registros fotográficos. Mas, chegaram os anos em que "sair bem na foto" era um fator importante, na ordem do dia do cotidiano. Eu precisava ser meio descolado, para conquistar oportunidades de possíveis chances de perder a virgindade. Então, eu acreditava que essas seriam as oportunidades perfeitas para mostrar meu sorriso. Então eu sorria. Diziam que sério estava melhor. O tempo passou.
Não irei mentir. Passei horas em frente ao meu espelho, tentando bolar o sorriso mais bacana que eu conseguisse. Passei anos na função de encontrá-lo. Eu sabia que quando o encontrasse, seria uma alegria plena. A felicidade mais pura. Eu iria sorrir ele, para ele mesmo, só para demonstrar meu apreço por sua forma, sua assimetria proposital, seus traços formidáveis. Iríamos passear juntos pelos parques, shoppings, ruas e demais locais. Iria carregá-lo comigo, para lá e para cá. Teria cãimbra nas bochechas, mas orgulho no fundo dos olhos.
Certo dia, encontrei ele. Estava caminhando por uma calçada qualquer, de uma rua qualquer. Ao parar numa vitrine qualquer, vi minha face refletida. Olhei um produto, e achei muito bacana. Vi o preço, e não gostei. No entanto, acompanhado de meu desgosto, veio aquele sorriso de canto de boca. Aquele que a raposa deu, quando repudiou as uvas. Aquele sorriso de canto de boca me conquistou. Era minha chance. Era ele quem eu procurava. Era pra ele, o verso de Camões que tratava de um "contentamento descontente".
Levei ele pra casa, tranqüilo. Posicionei-me em frente ao espelho do banheiro. Olhei fixamente para minha face, e sorri. Sorri aquele sorriso. Mas, e se eu esquecesse dele? Era preciso registrá-lo imediatamente. Agarrei minha câmera fotográfica, mirei no espelho e tirei várias fotos. Várias e diversas fotos, de todos os ângulos possíveis. Precisava guardá-las, estudá-las, admirá-las. Passei elas para o computador, e as escondi numa pasta. Nascia meu arcabouço. Meu baú de sorrisos. Minha caixa de pandora social.
Agora eu tinha um sorriso. Eu poderia cumprimentar as pessoas no ponto de ônibus, na padaria, na fila do banco. Eu poderia vender a imagem de curitibano simpático. Eu estava tranqüilo. Tirava fotos, sem a preocupação de ter que arquitetar um movimento muscular preciso. Simplesmente escorregava o canto da boca para um lado qualquer, e ele surgia. Ele. O único. O enigmático. O sorriso-de-canto-de-boca. Ele tinha essa terminologia. A etimologia própria.
Afinal, não era um sorriso qualquer. Era um sorriso com história. Era fruto de tentativas, experiências. Ele era o meu Frankenstein feito de pedaços de mim mesmo. Era o meu monstro. Mas, gostávamos um do outro. Até o dia. O fatídico dia, onde me coloquei a refletir sobre ele, e não foi na frente de um espelho. Estava observando fotos minhas, e reparei que meu sorriso-de-canto-de-boca interrompia a elíptica de meus olhos.
A cólera tomou conta de mim. Como ele ousava? Meus olhos eram meu trunfo de nascença. Azuis como uma calça jeans nova, ou a água do mar, ou o céu do amanhecer. Como permiti que meu apreço pelo sorriso negligenciasse as janelas da minha alma? Jamais me perdoaria por tal feito. Deixei que meus olhos sofressem a atrocidade do tempo, na forma de pés-de-galinha e olheiras, mas contornava meu sorriso-de-canto-de-boca todo dia, com maquilagem, para deixá-lo preparado para qualquer intempérie.
Eis que coloquei-me à frente do juíz da vaidade, de novo. Fitei seus olhos. Aos que o conhecem e o visitam com certa freqüência, deixo registrado que às vezes o aprecio, mas, normalmente discutimos. Ele, o espelho, reflete mais do que apenas a luz que intercepta meu corpo. Ele reflete meu alter-ego. Ele reflete o eu-lírico que me acompanha no dia-a-dia. Fiquei frente à frente com ele, em busca de um consenso. Os olhos chegaram a ficar vermelhos de raiva, mas não saí dali. Era o confronto final.
Precisava de um sorriso novo. Ficar sério estava fora de cogitação. O tempo tinha me presenteado com barba, falhas e cicatrizes. Eu não podia me dar ao luxo de carregar uma face séria, sisuda. Após uma eternidade de minutos, não consegui chegar a conclusão alguma que prestasse. A frustração agora era outra. Eu tinha um sorriso, mas, ele não fazia mais jus à sua função.
O tempo passou novamente. Me encontro aqui, ainda sem um sorriso que me faça feliz, mas, feliz o suficiente para não ter que pensar tanto nisso. Pelo menos por enquanto.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
faixa um, autor desconhecido.
o doce apreciar do não-saber.
e começo a escrever.
forma e conteúdo se chocam.
random colors, default template.
o cheiro do pão invade o quarto.
mais importante que isso, o troco do pão invade o bolso.
desfrutam-se as moedinhas.
mas, não há café. a preguiça é maior que o estilo.
a ausência de calçados, o moletom surrado,
o cheiro de pum na cadeira sem encosto.
não há ritual de escrita.
o ambiente não enfeitou os versos.
não é um filme em preto e branco.
estou desempregado e gordo.
frustrado e tudo mais.
mas, de versos tristes,
bastam as receitas em latas de atum.
é a vida no shuffle e repeat.
o doce apreciar do não-saber.
e começo a escrever.
forma e conteúdo se chocam.
random colors, default template.
o cheiro do pão invade o quarto.
mais importante que isso, o troco do pão invade o bolso.
desfrutam-se as moedinhas.
mas, não há café. a preguiça é maior que o estilo.
a ausência de calçados, o moletom surrado,
o cheiro de pum na cadeira sem encosto.
não há ritual de escrita.
o ambiente não enfeitou os versos.
não é um filme em preto e branco.
estou desempregado e gordo.
frustrado e tudo mais.
mas, de versos tristes,
bastam as receitas em latas de atum.
é a vida no shuffle e repeat.
sem saber cantar, eu canto.
e minha voz, fadada aos cantos dos quartos,
aos meios de um mundo inteiro,
derruba a si mesma num vôo breve.
sem saber escrever, eu escrevo.
e minhas palavras, sem lugar para onde correr,
se alojam nas linhas não lidas,
de textos não publicados.
sem saber ouvir, eu ouço.
e interpelo o som com meu silêncio.
e caio no sono durante trovoadas.
sem saber viver, eu vivo.
e meu corpo é análogo à passagem dos tempos.
me apego aos meus eus-líricos,
pois por dentro, eu sou produto para Chichikov.
e minha voz, fadada aos cantos dos quartos,
aos meios de um mundo inteiro,
derruba a si mesma num vôo breve.
sem saber escrever, eu escrevo.
e minhas palavras, sem lugar para onde correr,
se alojam nas linhas não lidas,
de textos não publicados.
sem saber ouvir, eu ouço.
e interpelo o som com meu silêncio.
e caio no sono durante trovoadas.
sem saber viver, eu vivo.
e meu corpo é análogo à passagem dos tempos.
me apego aos meus eus-líricos,
pois por dentro, eu sou produto para Chichikov.
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